sábado, 13 de junho de 2026

Desconstrução

Corpos que transitam pelas telas - Matheus Belchior

Corpos que transitam pelas telas buscam, antes de tudo, uma autorização para existir. O que vemos no deslizar incessante dos dedos sobre o vidro é o sintoma de uma melancolia profunda: a performance desesperada por legibilidade.

Para que uma vida seja considerada viável, ela precisa ser reconhecida. E, na arquitetura digital da hipervisibilidade, esse reconhecimento foi terceirizado para o algoritmo. Moldamos o rosto, a pose e o instante sob as normas estritas de uma gramática visual que "promete pertencimento", mas que cobra como pedágio a própria fratura do eu. O sujeito se desfaz na exata medida em que tenta se edificar para o olhar do outro.

O drama da subjetividade contemporânea reside na repetição compulsiva de uma farsa estática. Normas de gênero, de beleza e de felicidade são encenadas diariamente em enquadramentos milimetricamente calculados. Há uma coreografia exaustiva em parecer real, um effort descomunal para sustentar a ficção de uma identidade sólida e reluzente.

No entanto, essa performance não liberta; ela aprisiona. O corpo, enclausurado na moldura da tela, torna-se um simulacro. A busca por validação digital expressa em métricas e curtidas opera como uma engrenagem que dita quais vidas são dignas de atenção e quais devem ser lançadas à margem do esquecimento virtual.

A ironia trágica desse processo é que, ao tentarmos nos tornar radicalmente visíveis, nos tornamos radicalmente vulneráveis à despossessão de nós mesmos.

O que acontece, então, quando a máscara supera a capacidade do rosto de sustentá-la? O colapso é inevitável. Quando a desconexão entre a carne viva e a imagem pixelada se torna um abismo intransponível, o sujeito desmorona. Não se trata de uma destruição súbita, mas de um processo lento de destruição interna, onde a subjetividade vai sendo desidratada até sobrar apenas o esqueleto da aparência.

Esse desabamento nos confronta com a nossa vulnerabilidade mais primária, aquela que tentamos recalcar através do controle absoluto da nossa imagem pública. Somos seres dependentes ao outro na própria natureza, dependentes do toque, do olhar e da alteridade real para nos sabermos vivos. Quando substituímos esse por um espelho narcísico e digital, a solidão se sofistica.

Visto de fora, o isolamento e a queda parecem o fim da linha. Contudo, na perspectiva da desconstrução das normas que nos sufocam, a ruína também pode ser o lugar onde o questionamento começa. Quando a performance falha e o castelo de cartas das aparências desaba, o indivíduo é devolvido à sua própria precariedade.

É no silêncio do quarto escuro, longe dos holofotes do feed, que a dor para de ser um espetáculo e se torna, novamente, humana. Desfazer-se desse ideal normativo e inalcançável é um processo doloroso, uma morte em vida necessária; é também a pré-condição para que outras formas de existir menos vigiadas, mais corporificadas e genuinamente compartilhadas possam, finalmente, respirar e se libertar.

Matheus Belchior

domingo, 31 de maio de 2026

A Arte que Cura: Como as Expressões Artísticas Transformam Nossa Saúde Mental

A arte possui um poder silencioso, mas profundamente transformador. Ela funciona como um canal terapêutico vital para a nossa saúde mental que não exige palavras quando a dor é indescritível, nem cobra lógica quando a mente está em caos.

Mais do que uma simples forma de expressão ou entretenimento, o fazer artístico atua diretamente na regulação das emoções e na reestruturação dos nossos pensamentos.

Abaixo, descobrimos como diferentes formas de arte agem no nosso cérebro e no nosso corpo, trazendo cura e equilíbrio.


🎨 Artes Visuais e o Estado de Fluxo

Quando nos envolvemos com as artes visuais seja pintando, desenhando ou esculpindo, ocorre a ativação de áreas cerebrais ligadas ao prazer e à recompensa.

Esse processo nos conduz ao chamado estado de fluxo (flow), um conceito desenvolvido pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (1990). Ele descreve um state psicológico em que o mundo exterior silencia e a ansiedade diminui drasticamente devido à alta concentração no momento presente.

Pesquisas contemporâneas no campo da neuroestética e da arteterapia comprovam que a criação artística visual reduz significativamente os níveis de cortisol o hormônio do estresse no organismo, independentemente da habilidade técnica prévia do participante (KAIMAL; RAY; MUNIZ, 2016).

Além disso, dar uma forma visual, uma cor ou uma textura a um sentimento abstrato ajuda a externalizar conteúdos internos psíquicos. Isso transforma o sofrimento em algo palpável e, consequentemente, mais fácil de ser processado e organizado internamente.


🎵 O Poder da Música e da Escrita Expressiva

De maneira semelhante, a música estabelece uma linha direta com o nosso sistema límbico, a região cerebral responsável pelas emoções, possuindo a capacidade de alterar o estado de espírito em questão de segundos.

Conforme demonstrado por Oliver Sacks (2007) em suas investigações sobre a neurociência cognitiva, os estímulos sonoros modulam respostas fisiológicas imediatas. Eles são capazes de:

  • Desacelerar os batimentos cardíacos;
  • Regular a pressão arterial;
  • Atuar como um poderoso aliado no manejo de crises de ansiedade e episódios de insônia.

Curiosamente, a música melancólica também exerce um papel curativo. Ao ouvir uma melodia que reflete a própria tristeza, o indivíduo experimenta o fenômeno da catarse e da empatia percebida, gerando uma sensação profunda de validação e a compreensão de que não está sozinho em sua dor.

Colocando ordem no caos com as palavras

Já a escrita afetiva e a poesia funcionam como ferramentas para organizar a mente. Os experimentos de James Pennebaker (1997) sobre a escrita expressiva demonstraram que o ato físico de transcrever pensamentos acelerados obriga o cérebro a abrandar o ritmo e a estruturar uma narrativa lógica.

Através desse distanciamento temporário dos traumas, projetados em palavras, consegue-se organizar a memória biográfica e ressignificar histórias passadas sob uma nova perspectiva.


💃 O Corpo Guarda a Dor: Dança e Teatro

Essa cura também se manifesta de forma física através da dança e do teatro. Afinal, o estresse e o trauma acumulados não se limitam à mente, mas ficam frequentemente retidos no corpo sob a forma de tensões e dores crônicas.

Bessel van der Kolk (2014), em seus renomados estudos sobre a somatização, defende que o corpo guarda os registros das dores psíquicas e que práticas que envolvem a ação e o movimento são fundamentais para a liberação desses registros.

  • Na dança: Movimentar o corpo libera endorfinas e dopamina, permitindo uma catarse física que expressa a opressão que a fala não consegue verbalizar.
  • No teatro: A prática permite explorar facetas reprimidas da personalidade ao vestir a pele de outras personagens.

🌟 O Processo Importa Mais que o Resultado

O aspecto mais libertador da arte como cura que constitui o pilar central da arteterapia moderna, fundamentada tanto na expressão dos símbolos do inconsciente de Carl Jung (1964) quanto na abordagem humanista de Natalie Rogers (1993) é que ela é completamente inclusiva e isenta de julgamentos.

Não existe a exigência de talento ou perfeição técnica. O valor terapêutico reside inteiramente no processo de criar, e não no produto final. Ao abdicar da autocrítica, permite-se que a mente respire, se reconecte com sua essência e encontre o caminho para a autorregulação.

Matheus Belchior


Links e Referências Científicas

  • CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow: The Psychology of Optimal Experience. New York: Harper & Row, 1990.
  • JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
  • KAIMAL, G.; RAY, K.; MUNIZ, J. Reduction of Cortisol Levels and Participants' Responses Following Art Making. Art Therapy, v. 33, n. 2, 2016.
  • PENNEBAKER, J. W. Writing about emotional experiences as a therapeutic process. Psychological Science, v. 8, n. 3, 1997.
  • ROGERS, N. The Creative Connection: Expressive Arts as Healing. Palo Alto: Science & Behavior Books, 1993.
  • SACKS, O. Musicofilia: contos sobre a música e o cérebro. Companhia das Letras, 2007.
  • VAN DER KOLK, B. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking, 2014.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Há de ser leve...

“Há de ser leve...”

Não é um esforço, é uma permissão. É como se, de repente, todos os nós que travam os passos se desfizessem sozinhos. A vida, que tantas vezes parece um bloco pesado de pedra, revela-se breve, quase etérea. E nesse devaneio, você percebe que não precisa de pressa, nem de força bruta.

O caminho exato não é aquele traçado no mapa com linhas rígidas, mas sim o que se desenha com delicadeza. É a certeza mansa de que, no final das contas, o que realmente sustenta os dias é o afeto. Só o afeto, entregue de forma mansa, suave, sem amarras.

Você se vê flutuando sobre as preocupações, respirando um ar que não pesa nos pulmões. É um estado de espírito onde o "viver" se torna um verbo leve, um deslizar contínuo, onde cada momento é apenas uma nota suave em um silêncio acolhedor.

Matheus Belchior

domingo, 26 de abril de 2026

O Pianista das Ruínas Sírias

O Som da Esperança | Matheus Belchior

O Piano entre Escombros

A resistência de Aeham Ahmad e a utilidade do inútil

Em 2014, o campo de refugiados de Yarmouk, na Síria, era um dos lugares mais perigosos do mundo. Cercado, sem comida, eletricidade ou remédios, o bairro estava sendo reduzido a escombros. No meio desse cenário cinzento e silencioso, algo impossível aconteceu: o som de um piano.

Aeham Ahmad, um jovem músico que estudou piano desde os cinco anos, decidiu que não deixaria o silêncio da guerra vencer. Ele colocou seu piano vertical sobre um carrinho de mão e o empurrou para o meio das ruas destruídas.

Enquanto as crianças do campo muitas passando fome se reuniam ao redor dele, Aeham tocava e cantava sobre o desejo de voltar para casa e a esperança de dias melhores. Os vídeos de suas performances viralizaram mundialmente, transformando-o no símbolo da resistência cultural síria. Para ele, o piano era uma arma contra o desespero.

Em 2015, membros de grupos extremistas interceptaram Aeham enquanto ele transportava seu instrumento. Eles consideraram a música "pecaminosa" e, diante de seus olhos, atearam fogo ao seu piano. Aeham teve que fugir. Ele cruzou o Mediterrâneo em um bote superlotado, como milhares de outros refugiados, levando consigo apenas a música que guardava na memória.

Por que ele fez isso?

O filósofo italiano Nuccio Ordine escreveu um manifesto "A Utilidade do Inútil", defendendo que as coisas que não geram lucro financeiro ou utilidade prática imediata (como a arte, a música e a filosofia) são, na verdade, as mais úteis para a humanidade.

No campo de refugiados, a prioridade lógica era comida e segurança. O piano, sob uma visão puramente utilitária, era "inútil", ele não matava a fome, não parava balas e era pesado para carregar. No entanto, Aeham prova que o ser humano não sobrevive apenas de pão e vinho.

O piano era "útil" porque combatia a depressão, o niilismo e o desejo de desistir. Ele oferecia uma estrutura emocional onde o caos reinava. Vivemos em um mundo que mede tudo pela produtividade. Mas e se o que nos torna humanos for justamente aquilo que "não serve para nada", a não ser para nos fazer sentir vivos?

A arte é o CPF da nossa alma!

Para Aeham, o piano era sua voz, sua dignidade e sua memória. Quando os extremistas queimaram o instrumento, eles não estavam apenas destruindo madeira e cordas; estavam tentando apagar a identidade de Aeham e o que ele representava para a comunidade.

Em tempos de guerra, grupos opressores costumam destruir a arte primeiro. Por quê? Porque sabem que a arte é o que mantém a identidade de um povo unida. Sem sua música ou sua história, um povo é mais fácil de ser dominado.

Quando o mundo tenta nos reduzir a números, estatísticas ou refugiados, a arte é o que nos lembra de quem realmente somos: seres com histórias, sonhos e uma voz única.

Por que precisamos do inútil?

O que sobra quando nos tiram tudo?

Matheus Belchior

terça-feira, 14 de abril de 2026

Metafisica da Vida

A Metafísica do Dia a Dia - Matheus Belchior

Metafisica da Vida

Imagine que cada pequeno percalço da vida como a chave perdida, o trânsito denso, a conta que chega antes, não seja um erro do destino, mas seja apenas uma interpelação da matéria. Na metafísica do dia a dia, os problemas são os pontos de atrito necessários para que a alma não deslize pela existência sem deixar rastro.

Se a vida fosse um imenso oceano de gelo perfeitamente liso e você tentasse correr, seus pés não encontrariam onde se apoiar. Você ficaria estático, patinando no mesmo lugar, ou seria lançado à deriva por qualquer brisa, sem poder decidir sua rota. O problema cotidiano é o que nos dá contorno. Quando algo "dá errado", somos subitamente arrancados do automatismo e devolvidos ao presente. O café derramado te desperta! "Ei, você está aqui, você habita um corpo, você ocupa um espaço." Existe uma beleza silenciosa na nossa luta contra o caos miúdo. Cada vez que você organiza o que se desfez, você está repetindo o gesto primordial da criação, transformando o Caos em Cosmos.

A paciência não é a ausência de irritação, talvez seja apenas a expansão do seu próprio ser para que a irritação tenha onde se diluir. A falha é a fresta por onde a luz da humildade entra, lembrando-nos de que não somos deuses, e sim aprendizes de uma coreografia complexa.

Olhe para os seus dilemas com a ternura de quem observa as marés. Elas vêm e vão, trazem detritos e levam areia, mas nunca param. O "problema" é apenas a vida em movimento, recusando-se a ser estática ou previsível. Se tudo corresse conforme o plano, o futuro seria apenas um eco do passado. O imprevisto é o único lugar onde o Novo pode realmente nascer.

Que você possa, hoje, tratar suas dificuldades como visitas inesperadas que, embora barulhentas, trazem o presente da presença. O cansaço é a prova de que você se entregou ao mundo. A busca por soluções é a prova de que sua esperança ainda está acesa. Descanse na certeza de que ser humano é, essencialmente, essa arte de equilibrar o infinito dentro de nós, com a finitude das coisas que nos cercam. E nesse equilíbrio, tudo está exatamente onde deveria estar.

Matheus Belchior

quinta-feira, 12 de março de 2026

O Espelho da Sala de Aula

A Sala de Aula de Psicologia: Um Salão de Espelhos

O Espelho da Sala de Aula

Estar em uma sala de aula de Psicologia exige, quase como regra, que se abra mão da zona de conforto da cegueira social. Onde outros cursos veem apenas um colega batendo o pé ritmicamente sob a mesa, nós vemos uma manifestação psicomotora de ansiedade em curso. Onde o leigo vê "alguém de gênio forte", nós identificamos uma rigidez cognitiva ou um mecanismo de defesa narcísico protegendo um ego fragilizado.

Há uma angústia na previsibilidade, uma solidão em perceber o "buraco" no outro. Identificar a repetição traumática na fala de um amigo de classe e saber que, mesmo com todo o conhecimento técnico, você não é o terapeuta dele. Você é apenas o par, assistindo ao desenrolar de uma tragédia anunciada em formato de comportamento cotidiano.

"A sala de aula de psicologia é um organismo vivo onde quarenta pessoas tentam desesperadamente não parecer 'o caso clínico da vez'..."

A grande ironia é que, enquanto você analisa a "sombra" do colega, ele provavelmente está fazendo o mesmo com você. Enquanto todos secretamente analisam a neurose alheia para validar a própria sanidade, o ambiente se torna um campo minado de percepções.

Identificar o "problema" no outro é, muitas vezes, o nosso primeiro estágio de negação antes de perceber que o conceito que o professor explica no quadro está, na verdade, descrevendo a nós mesmos. Olhamos para o coleguinha e prevemos sua crise de identidade, seu luto não elaborado ou sua rigidez cognitiva, como se estivéssemos em uma torre de vigia.

Mas, no fundo, a sala de aula é um salão de espelhos: a gente só consegue identificar no outro a poeira que já conhecemos debaixo do nosso próprio tapete.

Matheus Belchior

domingo, 8 de março de 2026

A Arte e o Processo de Cura

A Arte como Filtro Sagrado - Martha Graham

A Arte e a Cura de Martha Graham

Martha Graham tinha uma coreografia famosa chamada Lamentation (Lamentação). Nela, a bailarina fica sentada em um banco, envolta em um tecido elástico que parece um saco, que restringe seus movimentos, simbolizando a dor e o luto que "esticam" a alma.

Martha conta em seu livro que, após uma apresentação dessa dança, uma mulher que não parava de chorar foi visitá-la no camarim. Essa mulher estava em um estado de choque profundo, menciona-se que ela testemunhou a morte ou que o filho foi atropelado há 20 anos...

A mulher não conseguia chorar desde a tragédia, mas ao ver a coreografia de Martha Graham, ela finalmente conseguiu liberar sua dor e chorou copiosamente. Ela agradeceu à bailarina, pois aquela dança permitiu que ela voltasse a sentir e processar o luto.

Às vezes, a vida nos atropela literalmente ou metaforicamente e o que sobra é um silêncio petrificado. Imagine essa mulher: vinte anos carregando angústia dentro do peito. Vinte anos em que o mundo continuou girando, mas para ela, o tempo havia se tornado uma estatística congelada naquele asfalto. Ela não chorava porque o choro pressupõe que algo flui, e nela, tudo era pedra.

Então, ela entra em um teatro. Ela vê Martha Graham sentada em um banco, presa em um tubo de malha. Martha não está apenas dançando; ela está dando forma física ao invisível. O tecido estica, a coluna se curva, os cotovelos forçam o limite da fazenda. Aquilo não é um "passo de dança", é a tradução visual da angústia.

A importância da arte não está no entretenimento, mas na validação. Aquela mãe, ao ver Martha Graham lutar contra o tecido, finalmente viu sua dor do lado de fora. A arte disse a ela: "Eu sei como é estar presa no seu próprio corpo. Eu sei como a dor estica a gente até quase arrebentar".

A arte é o único idioma que falamos quando as palavras morrem. Ela é a chave que gira na fechadura de uma porta que nem sabíamos que estava trancada. Se aquela mulher não conseguia chorar em casa, diante das fotos do filho, era porque a realidade era crua demais para ser suportada. Mas a arte? A arte é o filtro sagrado. Ela permite que a gente olhe para o sol da nossa dor sem ficar cego.

A arte é o que nos diferencia do vazio. Ela é a prova de que, por mais que o mundo tente nos atropelar e nos calar, sempre haverá um palco ou um papel, ou um pincel pronto para nos dizer: "Pode chorar agora. Eu seguro o mundo para você por alguns minutos."

Matheus Belchior

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Reflexões sobre Grande Sertão Veredas

A Travessia de Riobaldo: Uma Análise Psicológica

Reflexões sobre Grande Sertão Veredas

A travessia de Riobaldo é a grande metáfora do espírito humano, um mergulho em um labirinto onde as fronteiras entre o eu e o mundo se dissolvem na poeira do sertão. Quando ele afirma que o viver é muito perigoso, ele não se refere ao risco da bala ou da faca, mas à vertigem da liberdade e ao sensação insuportável de ter que escolher quem se é em um mundo que não oferece garantias.

O sertão de Guimarães Rosa funciona como um cenário de experimentação psicológica, um campo aberto onde as convenções sociais colapsam e o homem se vê diante do "Cujo" — que nada mais é do que a personificação de suas próprias sombras, desejos inconfessáveis e o medo do vazio. Ao buscar o pacto nas Veredas Mortas, Riobaldo tenta, na verdade, uma transação cognitiva: ele quer trocar a angústia da dúvida pela certeza da condenação, até o inferno parece mais seguro do que a incerteza de uma vida sem rédeas.

No entanto, o silêncio do diabo é a sua resposta mais devastadora e libertadora, pois devolve a Riobaldo a toda responsabilidade por sua existência. Esse isolamento existencial mostra que o demônio não é uma entidade externa que habita as grutas, mas uma potencialidade da arquitetura humana, uma fiação complexa do nosso psiquismo que nos torna capazes tanto da maior ternura quanto da mais absoluta barbárie.

Diadorim aparece como um grande enigma afetivo, uma presença que desafia as categorias rígidas de gênero e desejo, forçando Riobaldo a confrontar uma beleza que dói e uma identidade que ele só consegue decifrar quando o tempo da possibilidade já se esgotou. A revelação final sobre Diadorim é o choque da realidade sobre a projeção, o momento em que o luto se funde com a percepção de que o amor é a única vereda que realmente importa, ainda que seja a mais difícil de seguir.

Assim, o pensamento final fica na compreensão de que somos todos jagunços de nossa própria história, lutando batalhas internas em um território que muda de forma conforme avançamos. O real não se entrega no início nem no fim da jornada, se manifesta no fluxo contínuo da travessia, nesse espaço entre o que fomos e o que pretendemos ser.

Somos seres em constante estado de "luscofusco", habitando a zona cinzenta entre a luz da razão e a treva do instinto. A lição de Rosa é que não existe um destino geográfico para a paz ou para a verdade; o que existe é a coragem de sustentar o olhar diante do espelho da própria consciência e aceitar que, embora o sertão seja vasto e perigoso, a única bússola confiável é a integridade do homem humano que decide, apesar de todos os problemas, continuar caminhando.

Matheus Belchior

Reflexões sobre Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Bolha dos Retiros

O retiro funciona como um parêntese na realidade. É o momento em que o fiel se retira do mundo para, teoricamente, encontrar a Deus, mas muitas vezes acaba encontrando apenas um espelho distorcido.

O retiro moderno exige o registro. A "paz que excede todo o entendimento" precisa ser postada com uma legenda bíblica, servindo mais para validar a imagem de "pessoa de luz" perante os outros do que para transformar a conduta sombria no cotidiano.

O ambiente isolado permite que o indivíduo sinta que "zerou o jogo". Ele chora, abraça desconhecidos e professa amor universal, mas esse amor raramente sobrevive à primeira fechada no trânsito ou ao atraso de um funcionário na segunda-feira.

Na teologia, fala-se em metanoia (mudança de mente/direção).
No retiro hipócrita, pratica-se apenas a catarse.

Se eu chorei durante a adoração, eu me sinto "limpo". A intensidade do sentimento é confundida com a profundidade do caráter. O fiel acredita que, por ter tido uma experiência emocional forte, ele automaticamente se tornou uma pessoa ética, ignorando que a ética é um exercício racional e constante, não um surto de choro.

A hipocrisia se manifesta no "pós-retiro". É o fenômeno do fiel que volta "cheio do Espírito Santo", mas continua sendo o mesmo indivíduo que sonega impostos, maltrata quem o serve ou propaga fofocas destrutivas na paróquia.

O retiro vira uma licença poética para continuar errando, sob o pretexto de que "sou humano e busco a Deus". Dentro do retiro, todos são "irmãos". Fora dele, a hierarquia social e o preconceito de classe operam a todo vapor.

O retiro cria uma simulação de Reino dos Céus onde a ética é fácil porque não há conflito de interesses. A verdadeira ética, no entanto, só se prova no deserto do mundo real, onde não há violão tocando ao fundo e o "outro" não é um irmão de fé, mas alguém que pensa diferente de você.

A falsa ideia de pecado nos retiros foca muito nas "tentações da carne" ou em falhas individuais menores, enquanto a omissão ética — o silêncio diante da injustiça, a arrogância religiosa e a falta de empatia real — é varrida para baixo do tapete do altar.

O retiro acaba sendo, muitas vezes, o lugar onde a hipocrisia é recarregada para aguentar mais um ano de aparências. É a manutenção preventiva de uma máscara que insiste em não cair, mas que não engana quem observa a vida fora da sacristia.

Matheus Belchior

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Filho pobre nem mãe gosta!

O Peso da Escassez nos Afetos

Filho pobre nem mãe gosta!

Sentença cruel

O amor, para quem vive no limite, muitas vezes deixa de ser um "sentimento" para se tornar uma "logística". Quando a pobreza entra pela porta, ela traz consigo o cansaço crônico. A mãe que "não gosta" do filho pobre, muitas vezes, é a mãe que está exausta de ver o próprio reflexo no fracasso financeiro do filho. É o medo de que o ciclo não se quebre.

A frustração espelhada

Para muitos pais, o sucesso do filho é a validação de que o sacrifício deles valeu a pena. Quando o filho continua "pobre", ele se torna uma luta que parece não ter fim.

O amor que vira cobrança

O carinho é substituído pela pergunta: "E o emprego?", "E as contas?". A relação se torna transacional porque a vida exige que ela seja.

A Psicologia do Desencanto

Olhando pelo viés da psicologia, existe uma ferida narcísica aí. O filho é, muitas vezes, a extensão dos sonhos dos pais. Quando esse filho não alcança o status esperado, ocorre um luto simbólico. A "falta de gosto" da mãe não é pelo filho em si, mas pela vida dura que ele representa. É mais fácil se afastar ou ser ríspido do que encarar a dor de não poder prover ou a angústia de ver quem amamos passando aperto.

"A pobreza tem essa capacidade de tornar as relações ásperas. Onde deveria haver um abraço, sobra a preocupação com o preço do gás. O afeto vira artigo de luxo que o cansaço não deixa consumir."

O Contraponto

Mas a verdade é que essa frase é uma meia-verdade amarga. Mãe gosta, sim. O problema é que o amor na escassez é um amor com espinhos. Ele fura, ele machuca, ele reclama. É um amor que não tem tempo para ser poético porque está ocupado demais tentando ser funcional.

Talvez o "nem mãe gosta" seja apenas o jeito cínico que a sociedade encontrou para dizer que a pobreza isola as pessoas, criando muros até dentro de casa.

Matheus Belchior

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Faroeste Caboclo

Análise: Faroeste Caboclo

Faroeste Caboclo: A Crônica de um Destino Traçado

Diferente das baladas românticas da época, a história de João é a crônica de um destino traçado pela inevitabilidade. Ele nasce no sertão, vê o sangue da família e carrega consigo uma "vontade de mudar".

O que torna a história potente é que João não é um herói imaculado. Ele é humano, falho e desesperado. Ele tenta a sorte, cai no crime, apaixona-se por Maria Lúcia e busca uma redenção que a sociedade lhe nega sistematicamente. O "Faroeste" do título não é sobre cowboys americanos, mas sobre a fronteira da lei em um Brasil que ainda estava aprendendo a ser moderno.


A Crítica Feroz ao Contraste Brasileiro

Faroeste Caboclo despeja uma crítica feroz ao contraste brasileiro. Brasília aparece como a "Prometida", mas se revela um palco de desigualdade:

  • O preconceito de classe: João é o "boia-fria", o "estranho", aquele que não pertence aos salões de Maria Lúcia.
  • A corrupção do sistema: A figura de Jeremias, o traficante influente, mostra como o crime se organiza sob os olhos (ou com a ajuda) do Estado.
  • A hipocrisia: A sociedade que consome a droga é a mesma que condena o traficante.

A Estrutura Musical como Metrônomo Emocional

A melodia começa arrastada, quase como um lamento. É o ritmo do cansaço, da viagem de ônibus, do sertão que ficou para trás. Conforme João entra no mundo do crime e conhece Jeremias, o andamento começa a ganhar corpo.

Quando a música chega ao duelo final, a banda atinge um frenesi. A voz de Renato altera-se, as palavras se atropelam para dar conta de toda a tragédia. O desacelerar final, quando se anuncia que "o povo declarou que João de Santo Cristo era santo", traz um tom melancólico.

Conclusão: Faroeste Caboclo me faz lembrar que no Brasil, a linha entre a santidade e a marginalidade é tênue, desenhada pela falta de oportunidades e apagada pelo sangue em um terreno baldio.

Matheus Belchior

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O mundo vai acabar - Histórias que minha mãe conta!

O Mundo Acabou? - Crônica

O Mundo Acabou?

Uma breve reflexão sobre a infância e o movimento do céu.

Ilustração da história: Nuvens em movimento

Era uma tarde, havia um estalar da madeira da varanda e o ranger rítmico dos ganchos da rede onde a pequena Rosa se balançava. Com os pés descalços tocando o chão de terra batida de vez em quando, mantinha um movimento lento, hipnotizada pela calmaria do interior.

Rosa decidiu deitar-se atravessada na rede, deixando a cabeça pendendo levemente para trás. Foi nesse momento que seus olhos se fixaram no imenso azul acima do telhado de telhas de barro. As nuvens que eram apenas brancos tufos de algodão estáticos impulsionadas por uma corrente de ar forte começaram a se mover, elas cruzavam o céu com uma velocidade incomum, como se estivessem com pressa de chegar a algum lugar.

Para os olhos de uma criança que sempre viu o mundo como algo sólido e parado, aquela visão foi aterradora. Ela viu o teto do mundo se desmanchando. A sensação de tontura do balanço da rede misturou-se à velocidade das nuvens, e a menina teve a nítida impressão de que a terra sob seus pés estava perdendo o freio.

O desespero subiu pela garganta. Rosa saltou da rede de uma vez, tropeçando nos próprios pés.

— Mãe! Mãe! — gritou ela, a voz fina rasgando o silêncio da fazenda enquanto corria em direção à cozinha, onde o cheiro de café passado começava a exalar.

Dona Conceição apareceu na porta, limpando as mãos no avental, assustada com o alvoroço. Antes que pudesse perguntar o que houve, a menina a agarrou pelas saias, apontando freneticamente para o alto com o rosto pálido.

— Mãe, corre! O mundo vai acabar! Olha lá, mãe, o céu tá fugindo! O mundo esta acabando!

A mãe olhou para cima, viu a correria das nuvens branquinhas contra o azul firme e soltou uma risada farta, daquelas que acalmam o coração. Pegou a filha no colo, sentou-se no degrau da escada e explicou que o mundo não estava acabando, e que as nuvens, assim como ela, às vezes também gostavam de apostar corrida.

Histórias que minha mãe conta - Matheus Belchior

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Djalminha

Djalminha

20:14, terça-feira. Chuva fina cortando a néon suja do centro expandido. O ar cheira a óxido, plástico queimado e aquele adocicado falso de ração industrial sabe, aquela merda que vendem em latas amarelas com promessa de "proteína sintética completa". Aqui embaixo, entre os becos-canal do antigo Brás rebaixado pelo colapso hídrico de 2026, a cidade despenca feito lixo rolado. Eu caminho com o saco nas costas e o olhar no chão. Meu nome? Ninguém pergunta mais. Antes era Djalma, Djalminha pra família, mas isso foi há tanto tempo que parece mentira.

Hoje sou só mais um fantasma com luvas furadas e um scanner manual que pisca vermelho quando detecta metal raro na lama urbana.

Tenho 47 anos ou será 48? Perdi a conta no apagão geral do Estado Livre Paulista lá em 2029... quando os drones pararam por três dias seguidos e o tempo virou areia movediça sem relógio nem calendário digital funcionando. Marquei as semanas nos tijolos perto da minha caixa-d'água abandonada com caneta permanente até conseguir recarregar meu chip retinal (aquele modelo barato da BioSul®). Então sim: tenho quase cinquenta implantes nesse motor cansado chamado corpo.

Mas corpo não é palavra certa. Corpo sugere unidade, saúde... integridade orgânica ou algo assim poético dos livros proibidos da Biblioteca Vertical lá no topo do Edifício Itália reformulado para elite cognitiva blindada contra poluição mental e física.

Eu não tenho corpo tenho sobra: perna esquerda ortopédica pós-acidente na Usina Petroquímica Mauá (onde trabalhei dois anos antes de ser demitido por “excesso biológico incompatível”), costelas mal soldadas desde uma briga com segurança privada por uma mochila cheia de cobres velhos… Meus olhos: esquerdo natural (cinza-pó), direito implantável comprado numa troca ilegal depois que um pedaço de painel solar com bateria acoplada explodiu perto do meu rosto durante um saque regulatório fracassado pela corporação EnergNet™.

O implante me dá visão térmica limitada até cinco metros e acesso à rede marginal quando passo perto dos repetidores piratas alimentados à base de energia solar artesanal montada nos telhados das torres-favelas inclinadas sobre as ruínas das estações antigas da CPTM desativadas.

Mas ele falha muito. Às vezes vejo sombras onde não tem nada... outras vezes enxergo tão bem quanto qualquer humano padrão o problema é saber demais o que estou vendo: pessoas dormindo em caixotes térmicos; crianças injetando dopamina caseira pra aguentar frio; mães rezando pra santos digitais carregados em pen-drives envelhecidos...

E eu ando nisso tudo como se fosse parte da paisagem urbana descartável porque sou mesmo.

Meu uniforme diário? Jaqueta preta sem marca remendada dez vezes nas axilas onde o suor corrói tudo; calça industrial resistente ao ácido fraco (óbvio); botina pesada encardida só mantida por tirantes improvisados porque os zíperes morreram há tempos; máscara facial simples tipo FFP3 originalmente azul-clara mas agora marrom-terra pelo acúmulo contínuo de fuligem atmosférica constante mesmo após leis ambientais fictícias criadas pelos governistas-fantasmas eleito pelos papéis “mais fáceis de fraudar” nas urnas em todo ciclo quadrienal…

Não uso nanotecnologia regenerativa claro isso custa créditos sociais ou conexões políticas… duas coisas que sumiram junto com meu registro civil oficial depois da fusão entre Prefeitura Autônoma Metropolitana Sul/Sudeste-Paulista + corporações multinacionais responsáveis pela Zona Urbano-Ecológica Monitorável Classe Ouro - ZUMEC-O™©

Ah… política! Como posso pensar nisso hoje?

Pensei muito antes… fui ativista anônimo nos coletivos subversivos anônimos na internet profunda antes do governo-fantasma bloquear todo protocolo de navegação, fiz parte das manifestações anti-ZUMEC-O antes da polícia rodoviária paulista dispersar tudo com drones-bombas, mas agora tenho coisas maiores pra pensar: como vou sobreviver até amanhã?

Matheus Belchior