quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Bolha dos Retiros

O retiro funciona como um parêntese na realidade. É o momento em que o fiel se retira do mundo para, teoricamente, encontrar a Deus, mas muitas vezes acaba encontrando apenas um espelho distorcido.

O retiro moderno exige o registro. A "paz que excede todo o entendimento" precisa ser postada com uma legenda bíblica, servindo mais para validar a imagem de "pessoa de luz" perante os outros do que para transformar a conduta sombria no cotidiano.

O ambiente isolado permite que o indivíduo sinta que "zerou o jogo". Ele chora, abraça desconhecidos e professa amor universal, mas esse amor raramente sobrevive à primeira fechada no trânsito ou ao atraso de um funcionário na segunda-feira.

Na teologia, fala-se em metanoia (mudança de mente/direção).
No retiro hipócrita, pratica-se apenas a catarse.

Se eu chorei durante a adoração, eu me sinto "limpo". A intensidade do sentimento é confundida com a profundidade do caráter. O fiel acredita que, por ter tido uma experiência emocional forte, ele automaticamente se tornou uma pessoa ética, ignorando que a ética é um exercício racional e constante, não um surto de choro.

A hipocrisia se manifesta no "pós-retiro". É o fenômeno do fiel que volta "cheio do Espírito Santo", mas continua sendo o mesmo indivíduo que sonega impostos, maltrata quem o serve ou propaga fofocas destrutivas na paróquia.

O retiro vira uma licença poética para continuar errando, sob o pretexto de que "sou humano e busco a Deus". Dentro do retiro, todos são "irmãos". Fora dele, a hierarquia social e o preconceito de classe operam a todo vapor.

O retiro cria uma simulação de Reino dos Céus onde a ética é fácil porque não há conflito de interesses. A verdadeira ética, no entanto, só se prova no deserto do mundo real, onde não há violão tocando ao fundo e o "outro" não é um irmão de fé, mas alguém que pensa diferente de você.

A falsa ideia de pecado nos retiros foca muito nas "tentações da carne" ou em falhas individuais menores, enquanto a omissão ética — o silêncio diante da injustiça, a arrogância religiosa e a falta de empatia real — é varrida para baixo do tapete do altar.

O retiro acaba sendo, muitas vezes, o lugar onde a hipocrisia é recarregada para aguentar mais um ano de aparências. É a manutenção preventiva de uma máscara que insiste em não cair, mas que não engana quem observa a vida fora da sacristia.

Matheus Belchior

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