Era uma tarde, havia um estalar da madeira da varanda e o ranger rítmico dos ganchos da rede onde a pequena Rosa se balançava. Com os pés descalços tocando o chão de terra batida de vez em quando, mantinha um movimento lento, hipnotizada pela calmaria do interior.

Rosa decidiu deitar-se atravessada na rede, deixando a cabeça pendendo levemente para trás. Foi nesse momento que seus olhos se fixaram no imenso azul acima do telhado de telhas de barro. As nuvens que eram apenas brancos tufos de algodão estáticos impulsionadas por uma corrente de ar forte começaram a se mover, elas cruzavam o céu com uma velocidade incomum, como se estivessem com pressa de chegar a algum lugar.

Para os olhos de uma criança que sempre viu o mundo como algo sólido e parado, aquela visão foi aterradora. Ela viu o teto do mundo se desmanchando. A sensação de tontura do balanço da rede misturou-se à velocidade das nuvens, e a menina teve a nítida impressão de que a terra sob seus pés estava perdendo o freio.

O desespero subiu pela garganta. Rosa saltou da rede de uma vez, tropeçando nos próprios pés.

— Mãe! Mãe! — gritou ela, a voz fina rasgando o silêncio da fazenda enquanto corria em direção à cozinha, onde o cheiro de café passado começava a exalar.

Dona Conceição apareceu na porta, limpando as mãos no avental, assustada com o alvoroço. Antes que pudesse perguntar o que houve, a menina a agarrou pelas saias, apontando freneticamente para o alto com o rosto pálido.

— Mãe, corre! O mundo vai acabar! Olha lá, mãe, o céu tá fugindo! O mundo esta acabando!

A mãe olhou para cima, viu a correria das nuvens branquinhas contra o azul firme e soltou uma risada farta, daquelas que acalmam o coração. Pegou a filha no colo, sentou-se no degrau da escada e explicou que o mundo não estava acabando, e que as nuvens, assim como ela, às vezes também gostavam de apostar corrida.