Reflexões sobre Grande Sertão Veredas
A travessia de Riobaldo é a grande metáfora do espírito humano, um mergulho em um labirinto onde as fronteiras entre o eu e o mundo se dissolvem na poeira do sertão. Quando ele afirma que o viver é muito perigoso, ele não se refere ao risco da bala ou da faca, mas à vertigem da liberdade e ao sensação insuportável de ter que escolher quem se é em um mundo que não oferece garantias.
O sertão de Guimarães Rosa funciona como um cenário de experimentação psicológica, um campo aberto onde as convenções sociais colapsam e o homem se vê diante do "Cujo" — que nada mais é do que a personificação de suas próprias sombras, desejos inconfessáveis e o medo do vazio. Ao buscar o pacto nas Veredas Mortas, Riobaldo tenta, na verdade, uma transação cognitiva: ele quer trocar a angústia da dúvida pela certeza da condenação, até o inferno parece mais seguro do que a incerteza de uma vida sem rédeas.
No entanto, o silêncio do diabo é a sua resposta mais devastadora e libertadora, pois devolve a Riobaldo a toda responsabilidade por sua existência. Esse isolamento existencial mostra que o demônio não é uma entidade externa que habita as grutas, mas uma potencialidade da arquitetura humana, uma fiação complexa do nosso psiquismo que nos torna capazes tanto da maior ternura quanto da mais absoluta barbárie.
Diadorim aparece como um grande enigma afetivo, uma presença que desafia as categorias rígidas de gênero e desejo, forçando Riobaldo a confrontar uma beleza que dói e uma identidade que ele só consegue decifrar quando o tempo da possibilidade já se esgotou. A revelação final sobre Diadorim é o choque da realidade sobre a projeção, o momento em que o luto se funde com a percepção de que o amor é a única vereda que realmente importa, ainda que seja a mais difícil de seguir.
Assim, o pensamento final fica na compreensão de que somos todos jagunços de nossa própria história, lutando batalhas internas em um território que muda de forma conforme avançamos. O real não se entrega no início nem no fim da jornada, se manifesta no fluxo contínuo da travessia, nesse espaço entre o que fomos e o que pretendemos ser.
Somos seres em constante estado de "luscofusco", habitando a zona cinzenta entre a luz da razão e a treva do instinto. A lição de Rosa é que não existe um destino geográfico para a paz ou para a verdade; o que existe é a coragem de sustentar o olhar diante do espelho da própria consciência e aceitar que, embora o sertão seja vasto e perigoso, a única bússola confiável é a integridade do homem humano que decide, apesar de todos os problemas, continuar caminhando.