A Arte e a Cura de Martha Graham
Martha Graham tinha uma coreografia famosa chamada Lamentation (Lamentação). Nela, a bailarina fica sentada em um banco, envolta em um tecido elástico que parece um saco, que restringe seus movimentos, simbolizando a dor e o luto que "esticam" a alma.
Martha conta em seu livro que, após uma apresentação dessa dança, uma mulher que não parava de chorar foi visitá-la no camarim. Essa mulher estava em um estado de choque profundo, menciona-se que ela testemunhou a morte ou que o filho foi atropelado há 20 anos...
Às vezes, a vida nos atropela literalmente ou metaforicamente e o que sobra é um silêncio petrificado. Imagine essa mulher: vinte anos carregando angústia dentro do peito. Vinte anos em que o mundo continuou girando, mas para ela, o tempo havia se tornado uma estatística congelada naquele asfalto. Ela não chorava porque o choro pressupõe que algo flui, e nela, tudo era pedra.
Então, ela entra em um teatro. Ela vê Martha Graham sentada em um banco, presa em um tubo de malha. Martha não está apenas dançando; ela está dando forma física ao invisível. O tecido estica, a coluna se curva, os cotovelos forçam o limite da fazenda. Aquilo não é um "passo de dança", é a tradução visual da angústia.
A importância da arte não está no entretenimento, mas na validação. Aquela mãe, ao ver Martha Graham lutar contra o tecido, finalmente viu sua dor do lado de fora. A arte disse a ela: "Eu sei como é estar presa no seu próprio corpo. Eu sei como a dor estica a gente até quase arrebentar".
A arte é o único idioma que falamos quando as palavras morrem. Ela é a chave que gira na fechadura de uma porta que nem sabíamos que estava trancada. Se aquela mulher não conseguia chorar em casa, diante das fotos do filho, era porque a realidade era crua demais para ser suportada. Mas a arte? A arte é o filtro sagrado. Ela permite que a gente olhe para o sol da nossa dor sem ficar cego.
A arte é o que nos diferencia do vazio. Ela é a prova de que, por mais que o mundo tente nos atropelar e nos calar, sempre haverá um palco ou um papel, ou um pincel pronto para nos dizer: "Pode chorar agora. Eu seguro o mundo para você por alguns minutos."