O retiro moderno exige o registro. A "paz que excede todo o entendimento" precisa ser postada com uma legenda bíblica, servindo mais para validar a imagem de "pessoa de luz" perante os outros do que para transformar a conduta sombria no cotidiano.
O ambiente isolado permite que o indivíduo sinta que "zerou o jogo". Ele chora, abraça desconhecidos e professa amor universal, mas esse amor raramente sobrevive à primeira fechada no trânsito ou ao atraso de um funcionário na segunda-feira.
Se eu chorei durante a adoração, eu me sinto "limpo". A intensidade do sentimento é confundida com a profundidade do caráter. O fiel acredita que, por ter tido uma experiência emocional forte, ele automaticamente se tornou uma pessoa ética, ignorando que a ética é um exercício racional e constante, não um surto de choro.
O retiro vira uma licença poética para continuar errando, sob o pretexto de que "sou humano e busco a Deus". Dentro do retiro, todos são "irmãos". Fora dele, a hierarquia social e o preconceito de classe operam a todo vapor.
O retiro cria uma simulação de Reino dos Céus onde a ética é fácil porque não há conflito de interesses. A verdadeira ética, no entanto, só se prova no deserto do mundo real, onde não há violão tocando ao fundo e o "outro" não é um irmão de fé, mas alguém que pensa diferente de você.
A falsa ideia de pecado nos retiros foca muito nas "tentações da carne" ou em falhas individuais menores, enquanto a omissão ética — o silêncio diante da injustiça, a arrogância religiosa e a falta de empatia real — é varrida para baixo do tapete do altar.