O Espelho da Sala de Aula
Estar em uma sala de aula de Psicologia exige, quase como regra, que se abra mão da zona de conforto da cegueira social. Onde outros cursos veem apenas um colega batendo o pé ritmicamente sob a mesa, nós vemos uma manifestação psicomotora de ansiedade em curso. Onde o leigo vê "alguém de gênio forte", nós identificamos uma rigidez cognitiva ou um mecanismo de defesa narcísico protegendo um ego fragilizado.
Há uma angústia na previsibilidade, uma solidão em perceber o "buraco" no outro. Identificar a repetição traumática na fala de um amigo de classe e saber que, mesmo com todo o conhecimento técnico, você não é o terapeuta dele. Você é apenas o par, assistindo ao desenrolar de uma tragédia anunciada em formato de comportamento cotidiano.
"A sala de aula de psicologia é um organismo vivo onde quarenta pessoas tentam desesperadamente não parecer 'o caso clínico da vez'..."
A grande ironia é que, enquanto você analisa a "sombra" do colega, ele provavelmente está fazendo o mesmo com você. Enquanto todos secretamente analisam a neurose alheia para validar a própria sanidade, o ambiente se torna um campo minado de percepções.
Identificar o "problema" no outro é, muitas vezes, o nosso primeiro estágio de negação antes de perceber que o conceito que o professor explica no quadro está, na verdade, descrevendo a nós mesmos. Olhamos para o coleguinha e prevemos sua crise de identidade, seu luto não elaborado ou sua rigidez cognitiva, como se estivéssemos em uma torre de vigia.
Mas, no fundo, a sala de aula é um salão de espelhos: a gente só consegue identificar no outro a poeira que já conhecemos debaixo do nosso próprio tapete.
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