Djalminha
20:14, terça-feira. Chuva fina cortando a néon suja do centro expandido. O ar cheira a óxido, plástico queimado e aquele adocicado falso de ração industrial sabe, aquela merda que vendem em latas amarelas com promessa de "proteína sintética completa". Aqui embaixo, entre os becos-canal do antigo Brás rebaixado pelo colapso hídrico de 2026, a cidade despenca feito lixo rolado. Eu caminho com o saco nas costas e o olhar no chão. Meu nome? Ninguém pergunta mais. Antes era Djalma, Djalminha pra família, mas isso foi há tanto tempo que parece mentira.
Hoje sou só mais um fantasma com luvas furadas e um scanner manual que pisca vermelho quando detecta metal raro na lama urbana.
Tenho 47 anos ou será 48? Perdi a conta no apagão geral do Estado Livre Paulista lá em 2029... quando os drones pararam por três dias seguidos e o tempo virou areia movediça sem relógio nem calendário digital funcionando. Marquei as semanas nos tijolos perto da minha caixa-d'água abandonada com caneta permanente até conseguir recarregar meu chip retinal (aquele modelo barato da BioSul®). Então sim: tenho quase cinquenta implantes nesse motor cansado chamado corpo.
Mas corpo não é palavra certa. Corpo sugere unidade, saúde... integridade orgânica ou algo assim poético dos livros proibidos da Biblioteca Vertical lá no topo do Edifício Itália reformulado para elite cognitiva blindada contra poluição mental e física.
Eu não tenho corpo tenho sobra: perna esquerda ortopédica pós-acidente na Usina Petroquímica Mauá (onde trabalhei dois anos antes de ser demitido por “excesso biológico incompatível”), costelas mal soldadas desde uma briga com segurança privada por uma mochila cheia de cobres velhos… Meus olhos: esquerdo natural (cinza-pó), direito implantável comprado numa troca ilegal depois que um pedaço de painel solar com bateria acoplada explodiu perto do meu rosto durante um saque regulatório fracassado pela corporação EnergNet™.
O implante me dá visão térmica limitada até cinco metros e acesso à rede marginal quando passo perto dos repetidores piratas alimentados à base de energia solar artesanal montada nos telhados das torres-favelas inclinadas sobre as ruínas das estações antigas da CPTM desativadas.
Mas ele falha muito. Às vezes vejo sombras onde não tem nada... outras vezes enxergo tão bem quanto qualquer humano padrão o problema é saber demais o que estou vendo: pessoas dormindo em caixotes térmicos; crianças injetando dopamina caseira pra aguentar frio; mães rezando pra santos digitais carregados em pen-drives envelhecidos...
E eu ando nisso tudo como se fosse parte da paisagem urbana descartável porque sou mesmo.
Meu uniforme diário? Jaqueta preta sem marca remendada dez vezes nas axilas onde o suor corrói tudo; calça industrial resistente ao ácido fraco (óbvio); botina pesada encardida só mantida por tirantes improvisados porque os zíperes morreram há tempos; máscara facial simples tipo FFP3 originalmente azul-clara mas agora marrom-terra pelo acúmulo contínuo de fuligem atmosférica constante mesmo após leis ambientais fictícias criadas pelos governistas-fantasmas eleito pelos papéis “mais fáceis de fraudar” nas urnas em todo ciclo quadrienal…
Não uso nanotecnologia regenerativa claro isso custa créditos sociais ou conexões políticas… duas coisas que sumiram junto com meu registro civil oficial depois da fusão entre Prefeitura Autônoma Metropolitana Sul/Sudeste-Paulista + corporações multinacionais responsáveis pela Zona Urbano-Ecológica Monitorável Classe Ouro - ZUMEC-O™©
Ah… política! Como posso pensar nisso hoje?
Pensei muito antes… fui ativista anônimo nos coletivos subversivos anônimos na internet profunda antes do governo-fantasma bloquear todo protocolo de navegação, fiz parte das manifestações anti-ZUMEC-O antes da polícia rodoviária paulista dispersar tudo com drones-bombas, mas agora tenho coisas maiores pra pensar: como vou sobreviver até amanhã?
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