A arte possui um poder silencioso, mas profundamente transformador. Ela funciona como um canal terapêutico vital para a nossa saúde mental que não exige palavras quando a dor é indescritível, nem cobra lógica quando a mente está em caos.
Mais do que uma simples forma de expressão ou entretenimento, o fazer artístico atua diretamente na regulação das emoções e na reestruturação dos nossos pensamentos.
Abaixo, descobrimos como diferentes formas de arte agem no nosso cérebro e no nosso corpo, trazendo cura e equilíbrio.
🎨 Artes Visuais e o Estado de Fluxo
Quando nos envolvemos com as artes visuais seja pintando, desenhando ou esculpindo, ocorre a ativação de áreas cerebrais ligadas ao prazer e à recompensa.
Esse processo nos conduz ao chamado estado de fluxo (flow), um conceito desenvolvido pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (1990). Ele descreve um state psicológico em que o mundo exterior silencia e a ansiedade diminui drasticamente devido à alta concentração no momento presente.
Pesquisas contemporâneas no campo da neuroestética e da arteterapia comprovam que a criação artística visual reduz significativamente os níveis de cortisol o hormônio do estresse no organismo, independentemente da habilidade técnica prévia do participante (KAIMAL; RAY; MUNIZ, 2016).
Além disso, dar uma forma visual, uma cor ou uma textura a um sentimento abstrato ajuda a externalizar conteúdos internos psíquicos. Isso transforma o sofrimento em algo palpável e, consequentemente, mais fácil de ser processado e organizado internamente.
🎵 O Poder da Música e da Escrita Expressiva
De maneira semelhante, a música estabelece uma linha direta com o nosso sistema límbico, a região cerebral responsável pelas emoções, possuindo a capacidade de alterar o estado de espírito em questão de segundos.
Conforme demonstrado por Oliver Sacks (2007) em suas investigações sobre a neurociência cognitiva, os estímulos sonoros modulam respostas fisiológicas imediatas. Eles são capazes de:
- Desacelerar os batimentos cardíacos;
- Regular a pressão arterial;
- Atuar como um poderoso aliado no manejo de crises de ansiedade e episódios de insônia.
Curiosamente, a música melancólica também exerce um papel curativo. Ao ouvir uma melodia que reflete a própria tristeza, o indivíduo experimenta o fenômeno da catarse e da empatia percebida, gerando uma sensação profunda de validação e a compreensão de que não está sozinho em sua dor.
Colocando ordem no caos com as palavras
Já a escrita afetiva e a poesia funcionam como ferramentas para organizar a mente. Os experimentos de James Pennebaker (1997) sobre a escrita expressiva demonstraram que o ato físico de transcrever pensamentos acelerados obriga o cérebro a abrandar o ritmo e a estruturar uma narrativa lógica.
Através desse distanciamento temporário dos traumas, projetados em palavras, consegue-se organizar a memória biográfica e ressignificar histórias passadas sob uma nova perspectiva.
💃 O Corpo Guarda a Dor: Dança e Teatro
Essa cura também se manifesta de forma física através da dança e do teatro. Afinal, o estresse e o trauma acumulados não se limitam à mente, mas ficam frequentemente retidos no corpo sob a forma de tensões e dores crônicas.
Bessel van der Kolk (2014), em seus renomados estudos sobre a somatização, defende que o corpo guarda os registros das dores psíquicas e que práticas que envolvem a ação e o movimento são fundamentais para a liberação desses registros.
- Na dança: Movimentar o corpo libera endorfinas e dopamina, permitindo uma catarse física que expressa a opressão que a fala não consegue verbalizar.
- No teatro: A prática permite explorar facetas reprimidas da personalidade ao vestir a pele de outras personagens.
🌟 O Processo Importa Mais que o Resultado
O aspecto mais libertador da arte como cura que constitui o pilar central da arteterapia moderna, fundamentada tanto na expressão dos símbolos do inconsciente de Carl Jung (1964) quanto na abordagem humanista de Natalie Rogers (1993) é que ela é completamente inclusiva e isenta de julgamentos.
Não existe a exigência de talento ou perfeição técnica. O valor terapêutico reside inteiramente no processo de criar, e não no produto final. Ao abdicar da autocrítica, permite-se que a mente respire, se reconecte com sua essência e encontre o caminho para a autorregulação.
Matheus Belchior
Links e Referências Científicas
- CSIKSZENTMIHALYI, M. Flow: The Psychology of Optimal Experience. New York: Harper & Row, 1990.
- JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
- KAIMAL, G.; RAY, K.; MUNIZ, J. Reduction of Cortisol Levels and Participants' Responses Following Art Making. Art Therapy, v. 33, n. 2, 2016.
- PENNEBAKER, J. W. Writing about emotional experiences as a therapeutic process. Psychological Science, v. 8, n. 3, 1997.
- ROGERS, N. The Creative Connection: Expressive Arts as Healing. Palo Alto: Science & Behavior Books, 1993.
- SACKS, O. Musicofilia: contos sobre a música e o cérebro. Companhia das Letras, 2007.
- VAN DER KOLK, B. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma. New York: Viking, 2014.
Nenhum comentário:
Postar um comentário