O Piano entre Escombros
A resistência de Aeham Ahmad e a utilidade do inútilEm 2014, o campo de refugiados de Yarmouk, na Síria, era um dos lugares mais perigosos do mundo. Cercado, sem comida, eletricidade ou remédios, o bairro estava sendo reduzido a escombros. No meio desse cenário cinzento e silencioso, algo impossível aconteceu: o som de um piano.
Aeham Ahmad, um jovem músico que estudou piano desde os cinco anos, decidiu que não deixaria o silêncio da guerra vencer. Ele colocou seu piano vertical sobre um carrinho de mão e o empurrou para o meio das ruas destruídas.
Enquanto as crianças do campo muitas passando fome se reuniam ao redor dele, Aeham tocava e cantava sobre o desejo de voltar para casa e a esperança de dias melhores. Os vídeos de suas performances viralizaram mundialmente, transformando-o no símbolo da resistência cultural síria. Para ele, o piano era uma arma contra o desespero.
Em 2015, membros de grupos extremistas interceptaram Aeham enquanto ele transportava seu instrumento. Eles consideraram a música "pecaminosa" e, diante de seus olhos, atearam fogo ao seu piano. Aeham teve que fugir. Ele cruzou o Mediterrâneo em um bote superlotado, como milhares de outros refugiados, levando consigo apenas a música que guardava na memória.
Por que ele fez isso?
O filósofo italiano Nuccio Ordine escreveu um manifesto "A Utilidade do Inútil", defendendo que as coisas que não geram lucro financeiro ou utilidade prática imediata (como a arte, a música e a filosofia) são, na verdade, as mais úteis para a humanidade.
No campo de refugiados, a prioridade lógica era comida e segurança. O piano, sob uma visão puramente utilitária, era "inútil", ele não matava a fome, não parava balas e era pesado para carregar. No entanto, Aeham prova que o ser humano não sobrevive apenas de pão e vinho.
O piano era "útil" porque combatia a depressão, o niilismo e o desejo de desistir. Ele oferecia uma estrutura emocional onde o caos reinava. Vivemos em um mundo que mede tudo pela produtividade. Mas e se o que nos torna humanos for justamente aquilo que "não serve para nada", a não ser para nos fazer sentir vivos?
A arte é o CPF da nossa alma!
Para Aeham, o piano era sua voz, sua dignidade e sua memória. Quando os extremistas queimaram o instrumento, eles não estavam apenas destruindo madeira e cordas; estavam tentando apagar a identidade de Aeham e o que ele representava para a comunidade.
Em tempos de guerra, grupos opressores costumam destruir a arte primeiro. Por quê? Porque sabem que a arte é o que mantém a identidade de um povo unida. Sem sua música ou sua história, um povo é mais fácil de ser dominado.
Quando o mundo tenta nos reduzir a números, estatísticas ou refugiados, a arte é o que nos lembra de quem realmente somos: seres com histórias, sonhos e uma voz única.
Por que precisamos do inútil?
O que sobra quando nos tiram tudo?
Nenhum comentário:
Postar um comentário