sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Reflexões sobre Grande Sertão Veredas

A Travessia de Riobaldo: Uma Análise Psicológica

Reflexões sobre Grande Sertão Veredas

A travessia de Riobaldo é a grande metáfora do espírito humano, um mergulho em um labirinto onde as fronteiras entre o eu e o mundo se dissolvem na poeira do sertão. Quando ele afirma que o viver é muito perigoso, ele não se refere ao risco da bala ou da faca, mas à vertigem da liberdade e ao sensação insuportável de ter que escolher quem se é em um mundo que não oferece garantias.

O sertão de Guimarães Rosa funciona como um cenário de experimentação psicológica, um campo aberto onde as convenções sociais colapsam e o homem se vê diante do "Cujo" — que nada mais é do que a personificação de suas próprias sombras, desejos inconfessáveis e o medo do vazio. Ao buscar o pacto nas Veredas Mortas, Riobaldo tenta, na verdade, uma transação cognitiva: ele quer trocar a angústia da dúvida pela certeza da condenação, até o inferno parece mais seguro do que a incerteza de uma vida sem rédeas.

No entanto, o silêncio do diabo é a sua resposta mais devastadora e libertadora, pois devolve a Riobaldo a toda responsabilidade por sua existência. Esse isolamento existencial mostra que o demônio não é uma entidade externa que habita as grutas, mas uma potencialidade da arquitetura humana, uma fiação complexa do nosso psiquismo que nos torna capazes tanto da maior ternura quanto da mais absoluta barbárie.

Diadorim aparece como um grande enigma afetivo, uma presença que desafia as categorias rígidas de gênero e desejo, forçando Riobaldo a confrontar uma beleza que dói e uma identidade que ele só consegue decifrar quando o tempo da possibilidade já se esgotou. A revelação final sobre Diadorim é o choque da realidade sobre a projeção, o momento em que o luto se funde com a percepção de que o amor é a única vereda que realmente importa, ainda que seja a mais difícil de seguir.

Assim, o pensamento final fica na compreensão de que somos todos jagunços de nossa própria história, lutando batalhas internas em um território que muda de forma conforme avançamos. O real não se entrega no início nem no fim da jornada, se manifesta no fluxo contínuo da travessia, nesse espaço entre o que fomos e o que pretendemos ser.

Somos seres em constante estado de "luscofusco", habitando a zona cinzenta entre a luz da razão e a treva do instinto. A lição de Rosa é que não existe um destino geográfico para a paz ou para a verdade; o que existe é a coragem de sustentar o olhar diante do espelho da própria consciência e aceitar que, embora o sertão seja vasto e perigoso, a única bússola confiável é a integridade do homem humano que decide, apesar de todos os problemas, continuar caminhando.

Matheus Belchior

Reflexões sobre Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Bolha dos Retiros

O retiro funciona como um parêntese na realidade. É o momento em que o fiel se retira do mundo para, teoricamente, encontrar a Deus, mas muitas vezes acaba encontrando apenas um espelho distorcido.

O retiro moderno exige o registro. A "paz que excede todo o entendimento" precisa ser postada com uma legenda bíblica, servindo mais para validar a imagem de "pessoa de luz" perante os outros do que para transformar a conduta sombria no cotidiano.

O ambiente isolado permite que o indivíduo sinta que "zerou o jogo". Ele chora, abraça desconhecidos e professa amor universal, mas esse amor raramente sobrevive à primeira fechada no trânsito ou ao atraso de um funcionário na segunda-feira.

Na teologia, fala-se em metanoia (mudança de mente/direção).
No retiro hipócrita, pratica-se apenas a catarse.

Se eu chorei durante a adoração, eu me sinto "limpo". A intensidade do sentimento é confundida com a profundidade do caráter. O fiel acredita que, por ter tido uma experiência emocional forte, ele automaticamente se tornou uma pessoa ética, ignorando que a ética é um exercício racional e constante, não um surto de choro.

A hipocrisia se manifesta no "pós-retiro". É o fenômeno do fiel que volta "cheio do Espírito Santo", mas continua sendo o mesmo indivíduo que sonega impostos, maltrata quem o serve ou propaga fofocas destrutivas na paróquia.

O retiro vira uma licença poética para continuar errando, sob o pretexto de que "sou humano e busco a Deus". Dentro do retiro, todos são "irmãos". Fora dele, a hierarquia social e o preconceito de classe operam a todo vapor.

O retiro cria uma simulação de Reino dos Céus onde a ética é fácil porque não há conflito de interesses. A verdadeira ética, no entanto, só se prova no deserto do mundo real, onde não há violão tocando ao fundo e o "outro" não é um irmão de fé, mas alguém que pensa diferente de você.

A falsa ideia de pecado nos retiros foca muito nas "tentações da carne" ou em falhas individuais menores, enquanto a omissão ética — o silêncio diante da injustiça, a arrogância religiosa e a falta de empatia real — é varrida para baixo do tapete do altar.

O retiro acaba sendo, muitas vezes, o lugar onde a hipocrisia é recarregada para aguentar mais um ano de aparências. É a manutenção preventiva de uma máscara que insiste em não cair, mas que não engana quem observa a vida fora da sacristia.

Matheus Belchior

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Filho pobre nem mãe gosta!

O Peso da Escassez nos Afetos

Filho pobre nem mãe gosta!

Sentença cruel

O amor, para quem vive no limite, muitas vezes deixa de ser um "sentimento" para se tornar uma "logística". Quando a pobreza entra pela porta, ela traz consigo o cansaço crônico. A mãe que "não gosta" do filho pobre, muitas vezes, é a mãe que está exausta de ver o próprio reflexo no fracasso financeiro do filho. É o medo de que o ciclo não se quebre.

A frustração espelhada

Para muitos pais, o sucesso do filho é a validação de que o sacrifício deles valeu a pena. Quando o filho continua "pobre", ele se torna uma luta que parece não ter fim.

O amor que vira cobrança

O carinho é substituído pela pergunta: "E o emprego?", "E as contas?". A relação se torna transacional porque a vida exige que ela seja.

A Psicologia do Desencanto

Olhando pelo viés da psicologia, existe uma ferida narcísica aí. O filho é, muitas vezes, a extensão dos sonhos dos pais. Quando esse filho não alcança o status esperado, ocorre um luto simbólico. A "falta de gosto" da mãe não é pelo filho em si, mas pela vida dura que ele representa. É mais fácil se afastar ou ser ríspido do que encarar a dor de não poder prover ou a angústia de ver quem amamos passando aperto.

"A pobreza tem essa capacidade de tornar as relações ásperas. Onde deveria haver um abraço, sobra a preocupação com o preço do gás. O afeto vira artigo de luxo que o cansaço não deixa consumir."

O Contraponto

Mas a verdade é que essa frase é uma meia-verdade amarga. Mãe gosta, sim. O problema é que o amor na escassez é um amor com espinhos. Ele fura, ele machuca, ele reclama. É um amor que não tem tempo para ser poético porque está ocupado demais tentando ser funcional.

Talvez o "nem mãe gosta" seja apenas o jeito cínico que a sociedade encontrou para dizer que a pobreza isola as pessoas, criando muros até dentro de casa.

Matheus Belchior